
- O Teu Vazio Arrefece-me. Entorpece-me. Enlouquece-me. -
o quarto é escuro. as paredes já foram brancas, em tempos. estão cheias de humidade, têm pintas pretas. há aranhas nos cantos que juntam ao tecto. há baratas.
a porta é de madeira, tem uma pequena arcada na entrada que faz um breve túnel, é toda castanha, a meio interrompida por quatro pequenas janelas cuja rara luz que dão apenas serve para anunciar a tua chegada, e tem um puxador dos antigos, cujo barulho perturbador funciona como uma campainha e uma passadeira vermelha. já foi bonita, decerto.
ao lado da porta está uma pequena cadeira de madeira, que usas para observar a minha dor, quando te sentes só e vens procurar-me.
a janela é das antigas, deve descobrir uma vista bonita, já não me lembro. agora está sempre fechada, com os estores corridos.
no meu lado esquerdo está uma mesinha-de-cabeceira, com um candeeiro com folhinhos cor-de-rosa. já deve ter sido bonito, agora é sujo e só serve para ele me humilhar mais. acende-o para que o veja, ele gosta que eu olhe para ele, gosta de olhar nos meus olhos e sentir a minha impotência face ao seu poder.
- O Teu Vazio Ecoa-me. Escoa-me. Magoa-me. -
passo os dias com medo do crshh-click que anuncia a tua chegada. não consigo dormir. faço jogos mentais durante todo o dia para tentar esquecer o terror que me corre nas veias. quando é que vais chegar outra vez? de que forma me vais matar desta vez? crshh-click, esse som que me ensurdece - chegas tu e contigo as minhas lágrimas. brotam compulsivamente, como trigo. sei que isso só te dá ainda mais prazer.
- O Teu Vazio Dói-me. Mói-me. Destrói-me. -
entras com um sorriso de satisfação, vais manjar.
o meu corpo envergonhado, descoberto, com frio, sujo.
as cordas magoam-me tanto as extremidades. o meu tornozelo direito sangra há dias, tu sabes, gostas de me ver sangrar.
ficas um bom bocado a olhar-me, sempre, gostas de me ver chorar.
avanças para mim como um animal em fúria.
rasgas-me com violência.
grito de dor, o lençol ensopado com o meu choro e o meu sangue.
- estás a gostar, eu sei, sua cabra. diz que gostas!
- não! por favor pára! eu nunca te fiz mal!
- tu gostas sua puta, tu gostas! és igual às outras todas! tu mereces isto tudo!
choro, choro. desisto de debater-me. choro, choro.
acabaste, por fim, por hoje. limpas-te e atiras a toalha suja p´ra minha cara.
pedes-me desculpa, dizes que é para o meu bem, que gostas de mim, mas que não consegues evitar.
choras também. sei que sofres também.
compreendo o teu sofrimento, digo-te em soluços (compreendo mesmo, lembro-me quando éramos felizes)... deixa-me tentar ajudar-te... deixa-me sair daqui... quem sabe ainda te amo também... quem sabe conseguimos... quem sabe...
até amanhã.
mas eu sei que não vais voltar amanhã.
vais voltar só quando eu pensar que não vens mais, e que me vais deixar ali: numa casa que já foi bonita e agora é assustadora, amarrada, a sangrar, esfomeada, suja, exausta, fraca... a morrer sozinha com as baratas.
começas a convencer-me que realmente o mereço.
crshh-click, acabou por hoje.
choro, choro. contorço-me com dores, não me consigo mexer. choro, choro.
sinto-me só, quando vais. porquê eu?
- O Teu Vazio Esmaga-me. Penetra-me. Viola-me. Mata-me. -
será que quando eu, por fim, morrer, vais chorar?
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"A mágoa altera as estações e as horas de repouso, fazendo da noite dia e do dia noite." - William Shakespeare
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